Autora: Laize Kasmirski

– Oh meu caro amigo, como pudestes fazer isso a mim? O que te fiz nestes últimos tempos para ser tão ingrato às minhas palavras?

O senhor continuou sentado na grama de pernas cruzadas e com o rosto entre as mãos. Uma única lágrima começou a deslizar entre seu rosto que já não era mais macio e sedoso como foi um dia. Este senhor que um dia foi jovem, um rapaz de boa pinta, bonito, conquistador e muito simpático, estava agora a lamentar seu desapontamento com seu amigo de infância. Viviam sempre juntos a brincar, a pescar, correr entre os campos e apostar quem flertaria a primeira garota que vissem na próxima esquina.

– Como que uma pessoa que carrega dentro dela tantas lembranças poderia agir assim desta forma?

Jogou-se para trás e deitou na grama, olhando e decifrando os formatos que as nuvens estavam fazendo.

– Será que existe algo além de nós que pudesse dar uma explicação a tudo isso?

– Por que uma vida assim tão injusta?

Colocou uma toalha em frente aos olhos e começou a recordar…

Eram garotos que buscavam a felicidade da vida em pequenos momentos. Estavam sempre juntos imaginando o futuro que os aguardava. Porém um dia se apaixonaram pela mesma garota. Era absolutamente impossível não gostar daquela moça, ela era incrível. Tinha um sorriso doce como o mel apanhado das abelhas. Um olhar gracioso que flertava os rapazes sem ao menos olhá-los. Mas o que mais fascinava a todos, era a maneira como gesticulava com seu corpo e suas mãos. Parecia uma bailarina em câmeras lentas, dançando uma suave música romântica o que fazia com que todos imaginassem como seria estar ali, abraçados com ela, sentindo seu aroma especial.

Lembro do dia em que pela primeira vez a cumprimentei e sentei-me a seu lado. No mesmo instante ela se virou e lançou um olhar fulminante. Estremeci-me completamente, não sabia distinguir se era um acontecimento bom ou péssimo. Ela ficou bem próxima a mim, segurou minha mão por segundos e levou-a em sua boca, quase derreti de tanto que suei. Logo, ela curva seu corpo inteiro perante o meu e sussurrou alguma coisa em meu ouvido que até hoje não soube identificar o que era. Eu já estava perdendo o controle e até minha visão estava ficando embaralhada. Não pude conter e passei a mão entre seus longos cabelos dourados que lhe pertenciam. Eram tão sedosos, fiquei imaginando como era possível existir alguém assim, tão perfeita. Logo, percebi que estava sendo induzido e senti um grande remorso. Ela me abraçou e senti seu calor transpassando entre os poros, alguma coisa não estava certa. Segurei seu braço e tentei afasta-la e ela puxou-me novamente junto de si. Comecei a ficar com receio, minhas mãos começaram a suar frio e quando ela tentou me beijar, pressenti que era maligna. Com meu desespero consegui me desgarrar a tudo e sair correndo. Cheguei perto do meu amigo comentei tudo que aconteceu e finalizei com uma frase:

– É uma armadilha de satanás.

Após este dia ele nunca mais nem sequer olhou para mim.

Anúncios