Autora: Laize Kasmirski

faixa conto cp

Estava na hora de ir embora, eu sabia que precisava ir, mas pensei, só mais um pouquinho. Esse pouquinho durou uma eternidade. Desgraça, eu teria que ter ido àquela hora…Tudo bem, nem sempre a gente acerta, mas estou me sentindo culpado por isso. Era um domingo chuvoso e já se passavam das 21h. Eu estava no bar com meus amigos bebendo umas cervejas para finalizar o final de semana ou até mesmo para iniciar “bem” a semana. Quando sai de lá, já se passavam das 22h30min, eu havia perdido a noção do tempo. Eu sei, não poderia ter deixado isso acontecer…

Entrei no carro, desengatei o freio de mão e sai arrancando pneus. Pressenti naquele momento que estava acontecendo algo muito estranho. Passei pela Rua XV, atravessei a Avenida Marechal e quando faltava somente duas quadras para chegar em casa, apareceu uma imagem em minha mente, de uma moça com o pescoço cortado, jorrando sangue a uns 25 cm diante seu corpo. Senti um grande calafrio naquela hora, uma sensação de culpa e desprezo invadiu meus pensamentos. Acelerei ainda mais o carro, passando para uma velocidade de 90 km/h. Por incrível que pareça, não tinha trânsito. Instantaneamente dou uma brecada, o sinal ficou vermelho. Droooooga. A moça volta em meus pensamentos e agora está com os braços entreabertos, como se estivesse querendo um abraço ou ajuda. Sua boca está aberta, sua língua coberta de sangue e o céu da boca preto. O cabelo estava bagunçado, com alguns fiapos espetados. Sua veste, não vestia nada, estava nua. Era branca, porém com manchas de sangue por todo seu corpo.

O sinal ficou verde, avancei e virando a curva consegui ver nossa casa. Na frente, possuía um carro estacionado, um modelo de Vectra na cor preta. Na entrada, eu apaguei as luzes do farol e estacionei em frente à garagem. As luzes da casa estavam apagadas, exceto a luz de um abajur que ficava em cima da cômoda ao lado da cama. Abri a porta da sala vagarosamente, dei uns cinco passos e vi a porta de nosso quarto encostada. Aproximei-me e tentei ouvir qualquer ruído do que poderia estar acontecendo. Fiquei imaginando o que estaria ocorrendo, ela poderia estar amarrada em um canto e ele apontando uma arma em sua cabeça, ou, ela sentada com a cabeça entre os joelhos e as mãos sobre a cabeça para se defender dos chutes e ou talvez ela… pudesse até mesmo estar me chifrando com aquele cara.

O silêncio me afligia e o álcool estava me deixando mais nervoso ainda. Tentava me manter sóbrio, mas continuava perdendo a razão. Fui até a cozinha, abri as gavetas procurando algum objeto cortante que pudesse usar para me defender. Encontrei um cutelo e já segurei firmemente em minha mão direita.  Novamente segui em direção ao quarto. Abri levemente a porta e avistei-os em minha cama. Estavam numa posição sexual que nem mesmo eu tinha feito com minha mulher antes. Fiquei totalmente comovido com o que estava diante meus olhos. Parei por um segundo e pensei: será que é isso que ela faz todos os finais de semana em que estou a beber com meus amigos? Agora isso não me vem mais ao acaso, só quero terminar logo de uma vez com tudo.

Minha esposa me lançou um olhar de desprezo e fracasso. Eu não estava conseguindo raciocinar direito, uma imensa fúria tomou conta de meus atos. A última coisa que lembro foi a pancada que levei em minha cabeça daquele cretino que fodeu com minha mulher e lógico, com a minha vida.

Acordei com uma forte tontura e dificuldades para assimilar tudo que havia ocorrido. Porém, quando eu levantei minha cabeça e olhei em volta, eu vi. Que cena horrível, vi a minha mulher da mesma forma que a moça aparecia em meus pensamentos na vinda com o carro. Foi um momento tenebroso, lembro também de ter olhado em volta e havia polícia em todos os lados, estávamos cercados. Procurei o vagabundo aos redores de nosso quarto, mas ele já havia fugido. Minha cabeça doía muito e a qualquer minuto eu desmaiaria novamente. Olhei novamente para o lado da minha mulher e ela já não estava mais ali. Nisso, chegou um oficial de polícia em minha frente e disse: Eu sinto muito.

Sente muito, sim, sei que ele sente. Aposto que deve estar rindo por dentro, pois não é ele o corno. Mesmo assim, perguntei onde estava ela e ele respondeu que estava caminho ao IML. Ao IML? Mesmo? Então ela morreu? Ah minha nossa! E eu não lembro de nada.

– E o sujeito? Aonde ele foi?

– Sumiu sem deixar vestígios, senhor. Estamos fazendo uma ronda, certamente iremos encontrá-lo logo.

– Por favor, encontre-o o mais rápido possível, não podemos deixar um canalha desse solto pelas ruas.

– Com certeza. Quer tomar um copo de água?

– Não, obrigado. Estou bem. Só preciso ficar um minuto a só.

– Ok. Estarei aqui se precisar.

Aos poucos pude recordar, estava acontecendo tudo como previamente havia planejado. O cara fugiu, foi até melhor do que pensei. Minha esposa, oh bela amada, morreste então por sua traição. É, está ai uma lição de vida. Tudo iria dar certo, tinha certeza.

– Senhor, acabamos de retirar todas as provas possíveis para o caso, estamos indo embora agora. Precisamos que o senhor compareça no escritório de delegacia amanhã cedo.

– Tudo bem, estarei lá as 9h.

– Certo, tenha uma boa noite.

– Boa noite.

Anúncios