Autora: Laize Kasmirski

cemiterio

Eu estava pressentindo alguma coisa naquela noite, juro que estava. Já era tarde, naquele dia eu havia voltado de ônibus para casa e já estava próximo das 23h. Lembro que usava uma bata verde, uma calça jeans e uma sandália sem salto, um conjunto de roupa que não costumo usar no meu dia a dia.

A aula havia terminado mais cedo, a esposa do professor estava sofrendo com sua hipertensão. Então eu fui para o laboratório de informática, falei com meu noivo sobre a possibilidade de vir me buscar, mas ele não quis (sabem como homem é né, arranjam desculpa para tudo). Perto das 22h eu resolvi ir ao banheiro e seguiria meu rumo até o ponto de ônibus, pois o ônibus costumava sair as 22:30h. Chegando ao ponto de ônbus eu sentei, fiquei aguardando 20 minutos. Nestes 20 min apareceu uma “colega” e começamos a conversar, ela estava ficando desesperada, pois pegaria um outro ônibus, porém como ela estava “naqueles dias” estava vindo muito. Meu ônibus chega e sou a única a entrar, lá dentro haviam no máximo 6 pessoas, talvez 7 com o motorista.

Ao descer do ônibus uma fina garoa começa a cair. Atravessei o asfalto e comecei a subir o morro. Meus cincos sentidos estavam bem aguçados, algo que me dava um certo calafrio ao mesmo tempo. Ouvia o som das cigarras, dos grilos, sapos, cachorros e inclusive dos girinos nas poças de água, que se encontravam à beirada da rua.

Estava chegando próximo ao cemitério e resolvi abrir o guarda-chuva, eu tinha a sensação que alguém me observava. A luz do quartinho da capela estava acesa, porém não havia nenhum carro ou sinal de vida por ali. Percebi que alguém me seguia lentamente e sempre ficava em uma distância calculada. Pensei em fechar o guarda chuva, pois se alguém me atacasse eu teria pelo menos chance de me defender. Mas não fechei, estava começando achar que aquilo tudo não passava de uma paranóia causada pelo cansaço mental.

O cemitério estava escuro, apenas a rua possuía algum tipo de iluminação. Mas não pense que o cemitério é apenas de um lado da rua, que se você não quisesse vê-lo era só olhar para o outro lado. O cemitério é cortado pela rua onde eu atravessava, não havia como desviar. Quando estava descendo o morro, senti que alguém realmente estava atrás de mim, tive medo de olhar. Apressei meu passo, mas os passos dele também aumentaram. Comecei a me apavorar, meu sangue começou a subir para cabeça e meu coração disparara. Não conseguia mais pensar, nem mesmo de como poderia me defender, eu estava entrando num estado de desespero. Num instante, olhei para outra rua que levava aos túmulos do cemitério e vi um vulto. Eu não conseguia acreditar, mas não tinha mais coragem de olhar novamente e ver que realmente estava ali.

Minha respiração começou a ficar ofegante, meus passos aumentaram tanto a velocidade que percebi que corria e não mais caminhava. Não havia mais ninguém na rua, as luzes das casas estavam todas apagadas e as luzes dos postes eram muito fracas. Com o guarda chuva aberto era difícil fugir, soltei o guarda chuva e corri, corri o mais rápido que minhas pernas poderiam aguentar, no entanto só senti uma mão agarrando minha boca e um braço me segurando pela barriga. Não, aquilo não poderia estar acontecendo comigo, não por favor não, sempre tive pavor em ao menos de pensar nisso.

Era um homem escuro, com um olhar fundo e sem qualquer emoção, era uns 40cm maior que eu. Vestia uma roupa surrada preta e uma galocha marrom, tinha um fedor de cigarro e possuía uma cicatriz próximo a boca.

Ele foi me puxando para o mato, eu tentava gritar, tentava chutar, bater mas nada adiantava, ele era muito mais forte que eu. Comecei a chorar, a me esperniar e tranquei minha respiração. Eu queria morrer, do que acreditar que tudo isso estivesse acontecendo. Ele me jogou contra uma árvore, encostou seu corpo no meu afim de me segurar com pressão, tirou minha blusa bruscamente, abaixou minhas calças sem nem sequer abrir o zíper e deu um tapa em meu rosto. Eu usava TODAS as minhas forças possíveis para me defender e nada adiantava. Chorava, segurava a respiração para me suicidar, mas sempre soltava-a surtando. Ele abriu o seu zíper da calça e tentei dar uma joelhada naquele lugar, ele me deu um soco em minha mandíbula, doeu muito, mas confesso que minha aflição era muito maior. Ele penetrou em mim e quase desmaiei de dor, não conseguia mais raciocinar, senti mais socos e tapas e apaguei.

Não me recordo do resto do fato, realmente prefiro nem saber. Disseram que fui encontrada no dia seguinte, jogada no mato próximo à esquina de minha casa. Fiquei uma semana no hospital e agora a única coisa que consigo pensar foi aquela noite, maldita noite. Se acham que irei superar isso e viver minha vida alegremente…estão enganados. Estou com uma faca em minha mão direita, prestes a cortar meu pulso esquerdo e para garantir vou passar a faca em meu pescoço.

Estas são as minhas últimas palavras.

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