Autora: Laize Kasmirski

assombracoes

História baseada em fatos reais, nomes são fictícios.

Aquela noite eu estava com medo, muito medo.

Era dezembro do ano passo, dois dias após o natal. Estávamos visitando parentes e aquela era a segunda noite em qual dormíamos ali.

Meus tios possuem um comportamento estranho, vivem discutindo e arranjando problemas um com o outro. Mas antes era diferente, bem diferente, antes de meus primos morrerem, eram três irmãos e os três únicos filhos que possuíam. É árduo lembrar o momento em que ficamos sabendo da notícia. Dois deles eram mais velhos que eu e a moça possuía a minha idade, foi realmente muito chocante.

Lembro como se fosse ontem, eu estava na escola quando recebi a notícia que meu avô havia morrido, partimos nessa mesma noite para o velório. Passamos a noite tremendo de frio, pois o clima era gelado, bem gelado. No outro dia de manhã cedo, foi o enterro, meus tios ligavam para um dos meus primos preocupados porque ainda não haviam chegado, porém a ligação nunca se completava.

Havíamos acabado de almoçar e chegam outros tios com a notícia que houvera um acidente e uma moça havia morrido. Todos apavorados, minha tia com a mão na cabeça dizendo: Katie, ou não, Katie não. Mas ela não ainda sabia a pior notícia que estava por vir. Após alguns minutos, recebemos uma ligação, não era apenas Simone que estava morta, era todos os seus filhos!

Fui junto ao IML para reconhecimento dos corpos, confesso que a cena era tenebrosa.

Colocaram os pedaços de corpos em cima das mesas, disseram que um deles antes de ser “montado”, era apenas um montinho de carne. Estavam em três mesas, não havia como reconhecer eles, eram apenas restos carnais tentando manter a forma de cadáveres. Após isso fomos ver o local do acidente, havia até pedaços de cérebros grudados no pára-choque do caminhão. Toda vez em que citam os seus nomes recordo deles vivos, porém esta cena também vem em mente.

Faz uns dois anos meus tios adotaram duas crianças, conseguimos perceber que elas estão ali apenas para ajudar no sítio. Não há amor nas palavras que são transmitidas à elas, sempre de uma forma de cobrança e grosseria. Para ter uma noção, houve um dia que meu tio comentou: “tenho medo que o Eric cresça e nos mate”. É bem isso mesmo, já da para ter uma noção agora do que podem estar sentindo: pressão e angústia, que poderá vir a se tornar em vingança.

A casa deles é de madeira, possui dois quartos, sala, cozinha, sacada, dois banheiros e mais um espaço para uma mesa e fogão a lenha. Há um morro atrás da casa, que faz parte do pasto, do outro lado possui uma lagoa, um paiol e um rancho. Logo abaixo, possui um escasso rio, que chamam de “açude” ou “sanguinha”.

No dia 27, eu e minha irmã fomos dar uma volta. Subimos o morro e atravessamos para o outro morro (que também fazia parte do terreno), o Eric nos seguiu. Pedi para ele espantar as vacas para passarmos, não é necessário falar que tinha medo delas. Logo, o Eric sumiu… Eu e minha irmã fomos até um lugar com uma bonita paisagem e nos sentamos. Passou-se uma hora no máximo, as vacas começaram a vir em nossa direção. Comecei a me apavorar, sentei ao outro lado de minha irmã, assim as vacas viriam na direção dela. As vacas começaram a chegar perto, bem perto. Paravam em nossa frente e ficavam nos encarando. Eu tinha vontade de sair correndo, mas eu nem se quer podia, estava rodeada por vacas. Até que, uma vaca deu a volta em nossa frente e parou justamente ao meu lado (Por queee justo eeeu??) Ela me encarava, deu um passo a frente e olhou no fundo dos meus olhos. Senti que ela queria me dizer alguma coisa, ela confiava em mim, achava que iríamos salvá-las. Então, mesmo com medo, eu passei a mão sobre seu fucinho, ela se tranqüilizou e voltou para a roda. Porém, não se passa muito tempo e vem outra vaca bem do meu lado. Comecei a me sentir uma curandeira, aonde todos vinham pedindo ajuda. Fiz a mesma coisa, fiquei olhando para ela e depois fiz um “carinho”, logo ela saiu também. Percebi que as vacas possuíam um segredo entre elas, andavam amedrontadas, precisam de ajuda para fugir dali. Começou a escurecer, descemos o morro e fomos para casa da tia.

Aquela noite eu e a minha irmã dormimos sozinhas na sala. Na sala tinha muitas fotos dos três filhos falecidos. Confesso que todas as vezes que olhava lembrava deles mais jovens. Foi difícil dormir, era difícil parar de pensar neles, virava para um lado e aparecia o rosto de um, virava para o outro surgia o outro, tentava mudar os pensamentos e aparecia ela. O pior ainda não era isso… Foi quando os barulhos começaram…Havia barulhos na cozinha, um som de abrindo e fechando a geladeira em poucos instantes. Tinha barulhos de rangidos de madeira, como se alguém puxasse o banco para sentar próximo à mesa. Ouvia-se passos freqüentes em um quarto, da cama em direção a porta. Teve um instante que não pude mais agüentar, os barulhos da cozinha ficaram mais intensos e mais próximos, chacoalhei minha irmã e nada, chacoalhei de novo e ela acordou. Falei para ela:

– Juana! Liga a luz.

– Por quê?

– Juana, por favor, liga a luz!

Ela foi até o final do colchão, sentou e procurou a tomada e disse:

– Não estou encontrando, mas por que você quer que ligue a luz?

– Eu estou ouvindo barulhos na cozinha!

– Ah, isso não é nada, tem um monte de barulhos, cachorros, galinhas, gatos… e além do mais, se tiver alguém aqui você irá estar chamando a atenção ligando a luz né?!

Ela voltou e deitou-se novamente, eu estava suando, não conseguia nem respirar direito, mas mesmo assim tentei virar para o lado e dormir. Logo, o barulho começou de novo e minha irmã ouviu.

– É você tinha razão, tem barulhos estranhos. Segura a minha mão.

Eu agarrei a mão dela e me mantinha atenta a qualquer ruído, toda vez que ouvia alguma coisa eu apertava ainda mais a sua mão. Era uma noite quente, porém eu estava com gripe e estava coberta por uma coberta de pêlo. Comecei a suar muito, ouvi novamente o barulho no quarto, o som de passos. Eu pedia em pensamento que alguém abrisse aquela maldita porta e saísse, mas na hora que provavelmente era hora de abrir a porta o silêncio voltava, era sinistro. A noite não passava, não sou muito religiosa, mas nessas horas a gente reza, reza para que o dia chegue, reza para que as assombrações saiam de sua cabeça, reza que os barulhos parassem e reza para que as vacas não estivessem certas, que era preciso fugir.

Após muitos calafrios, sustos e alucinações, minha mãe sai do quarto e vem em direção ao banheiro. Eu e minha irmã levantamos e seguimos, a Juana entrou no banheiro com a minha mãe e contou o que estávamos ouvindo e era justamente isso que minha mãe não queria ouvir, ela também estava ouvindo os sons e estava com medo. Fomos dormir novamente, ou melhor, deitar de novo. Passa-se uma hora mais ou menos e por fim eu pego no sono.

No outro dia de manhã comentamos para os tios sobre os barulhos sinistros, porém disseram que era apenas uma raposa que andava pelo sótão. Não acreditamos muito na idéia da raposa, acreditamos que apenas estão tentando esconder alguma coisa. Suspeito eu que o ataque mesmo será neste final de ano, pois minha tia comentou: Você vai vir aqui novamente nos visitar né, não é por causa do barulho que irá deixar de vir…

Toda vez que lembro ou penso neles sinto um calafrio na espinha, melhor não detalhar muito, podem não gostar.

Anúncios