Olá queridas pessoas, hoje vou postar um conto que fiz no início de setembro. Pouco tempo atrás deixei aqui a sinopse e como o prometido, abaixo está o conto. Para os que não se abaterem pela preguiça, boa leitura ; )

guerra

Era um dia chuvoso, mas não um dia chuvoso qualquer. Era um dia escuro, frio, tenebroso e chuvoso. A chuva caia tão forte sobre o telhado dando impressão que a qualquer momento o teto iria desabar. O vento soprava nas árvores fazendo-as balançar de um lado para outro, folhas caíam interruptamente. As janelas mesmo que trancadas se debatiam contra a fechadura, contudo ainda se ouvia o uuuuuuuuuuu que parecia mais um uivado de lobos que o som da ventania.

Peter estava tremendo embaixo da cama, toda vez que ouvia um trovão ele saltava com susto e batia sua cabeça contra as ripas que sustentavam a cama. Estava com tanto medo que se aparece alguém àquela hora provavelmente surtaria. Era um menino miudinho, com cabelos lisos castanhos escuros que escorriam sobre seus ombros, seus olhos tinham um tom de castanho avermelhado e sua pele era branco como leite. Peter era simplesmente uma gracinha para as menininhas de todas as idades. Apesar disso, seu maior companheiro era o Black, seu cachorro pastor alemão preto. Viviam em uma casa rústica de madeira, subindo as escadas estavam o quarto de Peter e o quarto de sua mãe. A mãe de Peter se chamava Isadora, no entanto, todos a chamavam somente de Dora (a pedido dela mesma). Dora tinha cabelos lisos e pretos que atingiam a metade das costas. Seus olhos, ao contrário de Peter, eram verdes. Um verde musgo intenso, fazendo lembrar as folhas da floresta. Sua pele branca como a de Peter, com um detalhe, era destacada por suas poucas sardas. Era considerada a mulher mais linda da cidade (a cidade é pequeníssima), seu corpo esbelto e sua postura ereta eram de causar inveja a olhos de outras mocinhas.

A chuva não parecia que daria trégua tão cedo, Peter estava começando a ficar com fome, mas não tinha coragem nem sequer de olhar para o que poderia ter no outro lado da porta. Black estava deitado próximo a ele, com suas patas dianteiras abaixo de sua cabeça. Suas orelhas bem erguidas, prestando atenção em cada ruído que ouvia. A cada tleck que fazia do som da madeira sendo estralada, o cachorro instantaneamente erguia a cabeça e o menino se assustava. Após duas horas de intensos sustos e batidas de cabeça, o tempo começa a se acalmar. Aliviado, Peter suspira e nisso ouve alguém bater na porta da frente que abre para sala. Não sabia se deveria ir atender ou não.

Permaneceu intacto onde estava, iria aguardar o indivíduo se cansar e ir embora. As batidas, porém não paravam, ouviram-se três batidas, logo, mais três, em seguidas mais batidas, sendo estas mais fortes ainda. Então pensou consigo mesmo, a próxima batida iria lá ver quem era. Seus ouvidos extremamente aguçados para ouvir mais uma batida, porém não a houve. Black saiu correndo disparadamente em direção à porta da sala. Peter correu até a porta de seu quarto e observou-o descendo as escadas de madeira, por pouco não bate o focinho no assoalho. Black brecou diante a porta e começou a latir, seu latido não era como se visse alguém desconhecido.

Era sem dúvida, um som de profundo desespero. Peter não sabia o que fazer, estava terrivelmente abalado e não conseguia imaginar o que poderia estar acontecendo para o cão agir daquela forma. Olhou para o relógio, faltavam ainda uma hora e meia para sua mãe voltar do trabalho, sentiu-se com a obrigação de averiguar o acontecido. Foi até a escada, deu mais uma espiada para ver se via algo ali embaixo, mas nada de anormal. Lentamente, deu um passo para alcançar o encosto e assim que seu pé atingiu o último degrau da escada, a escada rangeu estrondosamente que o menino acabou por tropeçar com o susto e rolar a escada a baixo.

Acordou se sentindo meio grogue, sem saber ao certo o que lhe havia acontecido. Em um ato impulsivo, colocou sua mão direita sobre a cabeça e percebeu que ali havia um enorme galo. Tentou sentar-se, porém na hora de levantar muitos fios de cabelos ficaram enroscados entre a madeira e o fez gemer de dor. Puxou-os vagarosamente acabando-os por arrancar alguns. Olhou para seus pés, estavam perfeitos. Olhou para suas pernas, aparentemente estavam sem nenhuma lesão.

Observou cuidadosamente seu tronco, tudo ok. Ao virar seus olhos para os braços, notou que estava com pequenos hematomas roxos. Arrastou-se até a parede e se escorou. Aos poucos foi se recordando… Tivera uma grande tempestade, logo alguém bateu na porta da sala, Black desceu e começou a latir e Peter caiu na escada. Nesse momento Peter se deu conta do desaparecimento do Black, aonde pudera estar que não estava mais ali perto da porta? Berrou pelo nome do cão, nada aconteceu. Berrou novamente mais alto e ainda nenhum sinal do Black. Um arrepio atravessou-lhe a espinha, olhou novamente para o relógio e viu que ainda faltavam quarenta e cinco minutos para sua mãe voltar. Agarrou-se junto ao apóio da escada e pôs-se de pé. Caminhou até a porta para ver se via Black pelas redondezas. Abriu a porta, deu um passo em direção a rua e olhou atentamente para todos os lados. Havia muitos galhos caídos no quintal, uma placa de rua foi parar na frente do portão da garagem, as flores foram devastadas, tinha sujeira e folhas em todos os cantos, a água suja escorria pela rua e uma mancha vermelha borrava a calçada. Peter correu até a mancha vermelha para identificar se era de Black, se abaixou e analisou minuciosamente cada detalhe dela. Seu coração se acelerou e sem mais poder pensar apenas colocou a cabeça entre as mãos e desabou a chorar. Suas lágrimas de dor traçavam caminhos em sua face, sua respiração estava ofegante e logo já soluçava mais do que respirava.

O vento soprava mais suave, fazendo seus cabelos se alvoroçarem para todos os sentidos. Sentou-se ali mesmo e abraçou suas pernas com os braços, colocando sua cabeça sobre o joelho. Começou a pensar no que poderia ter acontecido com seu companheiro, se ele por acaso estaria sofrendo muito, ou pior, se estaria ainda vivo… Seus pensamentos foram se tornando em ódio e a única coisa que lhe vinha a mente era encontrar o responsável pela barbaridade feita e fazê-lo pagar por seus atos. A vingança fazia-o esquecer de seu tamanho, de seus temores e de seus valores. Suas virtudes foram esquecidas pela raiva que o tomou. Decidiu que encontraria Black antes que fosse a última coisa que fizesse ainda vivo e iria se vingar do cara que havia feito-o sofrer.

Levantou-se e caminhou para entrar novamente na casa, ao chegar na varanda notou que havia um pequeno envelope de cor preta com bordas pratas, estava em cima do vaso de barro com lindos brotos de cravo. Pegou o envelope e sem perder mais nenhum minuto do seu tempo rasgou-o e tirou a mensagem do interior. O papel da carta era de cor bege, com uma textura firme e escrita com uma caneta de ponta super fina na cor preta. A caligrafia era perfeita, desenhada nos mínimos detalhes. Peter começou a ler:

Caro Peter,


é uma pena que eu tenha que ter seqüestrado seu cão para que possamos nos comunicar. Não sei o motivo pelo qual estás me evitando a tanto tempo. Espero que pelo menos desta forma possamos nos encontrar e finalmente trocar algumas palavras.

Assinado: Tom Hopkins


PS: Seu cachorro ainda sobrevive, encontre-me na estação às 15h30minh.

– Tom Hopkins, eu nunca ouvi falar desse cara, que absurdo. Esse cara deve ser um louco!! Não lembro ninguém que queira ter falado comigo, tenho falado com todos que me procuraram.

O rosto de Peter começou a ficar vermelho de raiva, nada disso fazia sentido e não havia motivo para raptarem o Black. Ergueu o envelope perto de suas vistas para verificar se havia algum endereço ou alguma pista. Nada… Somente seu próprio nome: Peter. Silenciosamente caiu uma única lágrima de seus olhos. Seu olhar vazio não focava mais nada ao redor. Perdido em pensamentos melancólicos, tentava somente arranjar algum sentido para tudo isso.

– Peter! Por que está dormindo aqui fora? – Dora (mãe de Peter) chegara a casa e encontra o garoto sentado de pernas cruzadas que acabara por adormecer encostado na parede. – Oh filho, você está com uma cara horrível, o que aconteceu? – Nessa hora, ela se aproxima do menino, abraçando-o e lhe beijando a testa.

– Mãe! Pegaram o Black, mãe. Machucaram-no e o levaram embora, o que precisamos fazer para tê-lo de volta? Mãe, eu quero o Black. – Lágrimas tornam a cair de seu rosto e Dora abraça-o mais forte contra o peito.

Enquanto acariciava-lhe o couro cabeludo, nota que há um grande galo na cabeça e acaba por vendo seus hematomas nos braços.

– Filho, o que lhe aconteceu? Por que está tão machucado? – O tom de sua voz passou para um timbre de imensa aflição. Percorrendo os olhos por todo o corpo do garoto, ela levanta-se e corre para abrir a porta da casa. – Vamos Peter, passe seu braço sobre meu ombro e vamos para dentro. – Ele fez uma careta e disse:

– Não mãe, comigo está tudo bem, eu consigo andar até lá. O problema é com Black. – Ele coloca a mão no chão e em um impulso fica de pé. Ela mesmo assim o segura pela cintura e caminharam em direção ao sofá que estava do outro lado da sala, de frente para a porta.

– Agora me conte tudo que ocorreu, filho. – Os dois sentaram no sofá, Dora fitando Peter e ele com um olhar fixo no chão.

– Estava trovejando muito, eu e Black ficamos no quarto, eu embaixo da cama e ele ao meu lado. Ouvimos batidas aqui nessa porta, eu não queria ver quem era, quando as batidas pararam, Black disparou para sala e eu fui até a escada para ver. Black latia diferente do que costumamos ouvir, era desesperador. Eu estava apreensivo, aí, quando a escada rangeu, eu levei um susto e cai. Eu devo ter ficado desmaiado por poucos minutos, mas foram esses minutos os suficientes para levá-lo embora. – O rosto dele estava mais pálido que o costumava ser. Suas mãos tremiam e seus olhos estavam vermelhos. – Mãe, eu encontrei esse envelope ali no vaso de cravo. Não faço a mínima idéia de quem tenha escrito isso, eu não conheço ninguém com esse nome e agora só quero poder conhecer para que possa nos vingar e pegar Black de volta.
Dora arregalou os olhos e pegou o envelope das mãos do garoto. Observou os detalhes em prata no envelope preto e ao ver a caligrafia escrita o nome de Peter, enrubesceu. Tirou a carta de dentro do envelope, desdobrou-a com cuidado e leu atentamente. Sem palavras, ela simplesmente levantou e foi para cozinha. Peter percebeu que havia alguma coisa muito estranha e seguiu-a.

– Mãe, você já sabe quem escreveu esta carta? – Seu olhar era de espanto e seu timbre agora era rouco. – Sabe, não é?

Dora pegou um copo de vidro, o pote com açúcar e uma colher. Colocou duas colheres de açúcar no copo, abriu a geladeira e despejou água até a borda, fechou a porta da geladeira e mexeu o líquido com a colher. Bebeu toda a água doce do copo em um só gole. Tornou a olhar para Peter, os olhares se cruzaram e agora quem chorava era ela. Ela correu até o menino e o abraçou fortemente e disse:

– Mantive um segredo de você durante todos esses anos. Eu sinto muito, mas sinceramente eu não poderia ter deixado que isso fosse acontecer. Não queria que você se envolvesse nisso tudo. Escondi a verdade de você para te proteger. Juro meu filho, que não tive outra opção. – As lágrimas rolavam sobre a face dela, duas a duas.

– O que é, mãe? O que você escondeu de mim? Por que Black foi raptado? Quem é esse cara?

– Peter sentiu seu sangue subir para seu rosto, estava tão enfurecido que a qualquer momento poderia quebrar alguma coisa.

– Peter se acalma, por favor! – Ela se aproximou dele, pegou em sua mão, mas ele imediatamente retirou. Ela encarou-o e começou a falar: – Seu pai não morreu em um acidente de carro, ele morreu durante a Guerra Arábica. Ele lutou contra os árabes, para que as mulheres tivessem mais direito e não sofressem mais os abusos que os árabes cometem. Ele achava injusto que as mulheres dos países árabes fossem tratadas como legítimos animais. Tom Hopkins foi o homem que lutou ao lado de seu pai, eles eram grandes amigos e foi por culpa dele que seu pai agora está morto. – O rosto de Dora agora estava inteiramente coberto por lágrimas, não conseguia mais continuar falando, seus soluços estavam a interrompendo a cada segundo.

Peter tentava raciocinar, ele jamais soubera que seu pai havia sido morto durante uma guerra e ainda por cima Guerra Arábica, nunca ouvira nada sobre isso. Não imaginava também que ele tinha um amigo e ainda vivo. O que tinha de tão horrendo nessa história que foi mantida em segredo todos esses anos? Por que Tom quer falar comigo há tanto tempo? Por que mamãe, ao que parece, evita-o e fala dele com um toma mais raivoso?

– Mãe, por que você tem um ressentimento do Tom se ele era amigo do papai? Por que você nunca deixou que eu conversasse com ele? – Novamente os olhares se cruzaram e Dora voltou a falar:

– Tom foi responsável pela morte de seu pai, você não entende? Foi por culpa dele que seu pai morreu. Quando a luta terminou, Tom foi levado ao hospital para tratar seus ferimentos. Eu não tive notícias de seu pai durante três dias. Todos os soldados sobreviventes já estavam com suas famílias ou na ala hospitalar, mas ninguém Peter, ninguém se quer deu informações de meu marido. Fiquei tão abalada quando soube da morte de seu pai que entrei em depressão profunda. Você tinha apenas dois anos e nessa época teve que ficar com sua avó para que fosse bem cuidado.

Peter encarou a mãe por segundos, ficou indignado ao saber que ela não havia contado nada antes. Estava com pena dela, ao mesmo tempo, ela deve ter sofrido muito durante todo esse tempo. Porém agora, que já estava dito, Peter precisava encontrar o Tom, pegar o seu cachorro e vir embora. Agora não sentia mais a raiva que pulsava em suas veias anteriormente. Estava até mesmo curioso para saber como foi que realmente tudo se passou, sabia que o amigo de seu pai, com certeza tinha muito que contar.

– Mãe, eu estou indo buscar o Black, já são 15h. – Ao falar isso, ele parou por um instante e pensou: “Se ele era amigo do meu pai, quer falar comigo há muito tempo e tem sangue na calçada… Bem, em todos os casos vou levar um estilete”. A mãe de Peter ficou observando por minutos sem contestar nada, parecia até meio fora de órbita. Caminhou até Peter, segurou sua mão e disse:

– Não vou te impedir meu filho, eu já deveria ter te contado há muito tempo. Não era para ser dessa forma, eu não queria que fosse nunca ver Tom, agora não há saída. Por favor, tome cuidado, pegue o seu celular, quando possível me ligue. – Nem Dora estava acreditando no que estava dizendo. Como poderia deixar seu filho apenas ir? Ela estava agindo assim, pois, até ela já havia percebido que não deveria ter agido tão bruscamente daquela forma. Precisava dar uma chance para Tom desabafar todos os momentos que restaram na memória.

Peter correu subiu as escadas correndo, foi até seu quarto, pegou o celular, um moletom preto com estampa do coringa “Let´s put a smile in your face” e um estilete, que estava dentro do penal. Jogou seus cadernos da mochila em cima da cama e utilizou-a para levar seus pertences. Correu até a porta, olhou para trás pensando se havia esquecido algo, voltou correndo, pegou a carteira e desceu novamente as escadas correndo. Foi até sua mãe, deu-lhe um beijo no rosto e saiu berrando tchau. Foi até a garagem, pegou a bicicleta e disparou em direção a rua.

Seus cabelos voavam contra o vento, sua camisa preta estava colada na barriga e a parte de trás parecia que iria alçar voo. Devia estar pedalando uns 30 km/h. Seu all star preto estava ficando sujo com a lama que vinha dos pneus, mas isso não importava mais. Olhou para o relógio, faltavam ainda 10 minutos para 15h30min. Passava pela Rua Dom Quixote, estava já bem perto da estação, precisava chegar até a esquina, cruzar a rua e virar a esquerda. Quando faltavam 5 minutos ainda, deixou sua bicicleta entre o orelhão e o poste de luz e foi andando em direção aos bancos, olhando tudo atentamente. Ao passar pelo caixa, viu a diante um cachorro preto sentado no chão ao lado de um senhor, sem dúvida era o Black.      Apurou os passos e pode ver nitidamente o amigo de seu pai. Ele usava uma calça social cinza, uma camisa branca, um casaco grafite aberto e um sapato preto. Seus olhos eram castanhos, seus poucos cabelos eram de cor preta e sua pele era bem enrugada. Não devia ter mais de 40 anos, mas sua aparência era de 60. Possuía olheiras fundas, um nariz de gancho e orelhas que pareciam ser de borracha. Estava fumando um cigarro e ao notar que Peter se aproximava, sorriu. Seus dentes eram amarelos, porém bem aparelhados. Parecia ser bom homem, inspirava confiança, não pudera ser menos, seu pai era seu amigo. Ainda com o sorriso nos lábios, Tom disse:

– Boa tarde tão estimado Peter, é um prazer em conhecê-lo finalmente. – Sua mão se estendeu para cumprimentar Peter. Black ao lado abanava o rabo de alegria, não havia sinais de maus tratos.

– Boa tarde Sr.Hopkins. Foi a primeira vez que soube que queria conversar comigo. – O menino levantou a mão para cumprimentar e em seguida foi ao lado do cão.

– Ele está bem, não precisa se preocupar. Nunca iria machucá-lo. – Ao pronunciar as palavras, Tom parecia estar com seu olhar longe, pensando em alguma coisa que estava relacionado ao cachorro.

– Mas por que tinha sangue na calçada em frente de casa? – Peter lançará um olhar desconfiado para Tom.

– O cachorro foi que me mordeu na hora que fui pegá-lo. – Levantou a manga do casaco e foi possível ver uma faixa com esparadrapo, visivelmente encharcadas de sangue. – Abaixou a manga novamente e comentou: – Eu estava junto com seu pai no dia em que ele comprou cachorro. Era o cão mais bonito da veterinária e aparentava ser o mais esperto também. Seu pai sem dúvida escolheu-o e disse que se alguma coisa lhe acontecesse, esperava que Black fosse seu anjo. – Pos a mão sobre o ombro de Peter e falou: – Seu pai foi um grande homem, não tenha dúvida disso.

– Não, não tenho dúvida sobre isso. – Confirmou Peter claramente. – Como foi que você e meu pai participaram da guerra? Minha mãe me falou somente hoje, ela sempre havia dito que papai morreu em um acidente de carro. – Peter, saiu do lado de Black e sentou-se ao lado de Tom.

Tom observou calmamente a expressão do rosto de Peter, analisando se Peter já fora induzido a acreditar que era o culpado pela morte de seu pai. Olhou nos olhos do garoto e disse:

– Não sei o que sua mãe lhe contou sobre a Guerra Arábica, Peter. Eu nunca consegui falar com ela sobre esse assunto, ela sempre me evitou e escondeu você para que também não entrasse em contato comigo. – Seu olhar passou a fitar o céu, em seguida encarou Peter e questionou: – O que você sabe sobre isso, menino?

Peter colocou suas mãos sob suas coxas e começou a balançar as pernas. Pensando no que poderia responder, para que não causasse a impressão de ser tão ingênuo no assunto. Virou a cabeça, olhou para Black e disse sinceramente:

– Eu realmente não sei muita coisa. A única coisa que soube foi que meu pai havia sido morto na Guerra Arábica, porém minha mãe não me disse nada sobre como ocorreu a guerra. E somente hoje fiquei sabendo que meu pai tinha um amigo, e minha mãe acabou dizendo que o senhor é responsável pela morte dele. – Peter disse isso com uma voz baixa, que aparentemente estava com vergonha ao dizer isso ao Tom.

– Não fique encabulado – disse Tom – a sua mãe sofreu muito ao receber a notícia e nunca conseguiu superar completamente a dor. Não podemos culpá-la por isso. – Tom cruzou as pernas e continuou a falar – Seu pai e eu éramos amigos desde a infância. Sempre estávamos juntos para brincar e estudar, fomos nomeados de ‘dupla infalível’. Éramos muito bons em praticamente tudo que fazíamos, bem, por isso que raramente fazíamos alguma coisa que não fossemos bons. Na adolescência, costumávamos a ir a shows de hard rock e caçar namoradas, as namoradas acabavam por ficar em sonhos mesmo. Foi um dia em que seu pai conheceu Dora, mas não foi em show, foi em uma exposição de livros. Seu pai sempre foi metido a escritor, adorava escrever histórias e eu de lê-las. Sua criatividade era fantástica, estava prestes a escrever um livro para finalmente publicar, porém, acabamos sendo chamados para lutar na guerra. Não queríamos, mas fomos obrigados. Pelo menos a luta era por uma boa causa. – Tom parou de falar, agora somente recordava da época. Peter pausou suas lembranças ao perguntar:

-Como foi que surgiu essa guerra? Perguntou Peter em um tom angustiante.

– A guerra começou, por causa da religião. Cada religião acha que a sua maneira é a certa e quer impor isso sobre a população em que se encontra. Como você pode perceber, tem religiões que predominam em determinados Estados e que de certa forma, prejudicam o meio. A religião nos países árabes é assim, prevalece sobre todos os pontos. As pessoas que não a cumprem são perseguidas, maioria delas, torturadas e mortas. Não há democracia, e sim, teocracia. O regime monárquico absolutista exerce seu poder desde 1932. É realmente muito triste que isso seja desta forma. – Tom deu uma inspirada profunda e continuou a dizer: – A guerra começou porque algumas mulheres que conseguiram fugir para outros países, como os Estados Unidos, Canadá, Holanda entre outros países, foram ameaçadas à morte. Com isso, gerou uma polêmica nos muçulmanos que acabaram por apedrejar e torturar ainda mais as mulheres islâmicas. Acreditavam que elas estavam conspirando contra a religião. Alguns países acabaram se rebelando diante a situação, a ONU tentou fazer um pacto para que houvesse paz. Diante disso, o papa Bento XVI, exigiu que houvesse liberdade religiosa, para que cada ser humano possa ter o direito de escolher sua religião.

– Mas Tom, porque as mulheres fugiam? – Peter estava demonstrando muito interesse, seus olhos nem piscavam ao ouvir a história.

– Peter, as mulheres são as mais injustiçadas, elas são decapitadas em praça pública por atos que nem cometeram. Exemplo disso são as mulheres que são estupradas (fato que acontece freqüente lá), essas mulheres são abusadas sexualmente e ainda por cima eles acusam-nas por serem as culpadas, e é assim que acabam recebendo em média 200 chicotadas e meses de prisão. Não há direitos para mulheres, são os seres que mais sofrem e tudo por causa da alienação da religião. Acredita que uma pessoa pode virar terrorista de um dia para outro? Mas e aí o que é feito? Nada, estava escrito no Alcorão. – Um silêncio se estabeleceu por dois minutos entre eles e Tom continuou: – A luta se iniciou no início de 2011, quando os muçulmanos passaram a raptar as mulheres que haviam fugido e torturá-las até a morte. Foi a coisa mais terrível que marcou esses últimos anos, além dessas mulheres, milhares de mulheres inocentes que respeitavam a religião fielmente também foram mortas. A chacina perdurou durante quatro meses, estima-se que dez mil mulheres foram sacrificadas por injusta causa. Foi então que os Estados Unidos atacou a Arábia Saudita em busca da liberdade de expressão, pluralismo político e cultural, fim das discriminações contra mulheres. Mas é lógico que, por trás disso tudo, os Estados Unidos estavam focalizados no Petróleo. Países europeus lutaram visando a democracia, que em 2005 quase foi possível alcançá-la com a reforma que houve depois da morte do rei Fahd. – Os olhos do Peter fixados em cada gesto que Tom fazia, cada palavra entrava em seus ouvidos e era gravada minuciosamente em seu cérebro. Houve mais alguns minutos de silêncio e Peter pergunta novamente:

– Como foi que meu pai morreu? – Peter nesse momento tenta não encarar Tom, sabe que será um momento difícil tanto de falar quanto para ouvir.

– Seu pai morreu me salvando Peter, foi por isso que sua mãe me considera o culpado pela morte. Ele saltou na minha frente quando um árabe mirou minha cabeça. Eu estava caído no chão, já havia sido baleado no tórax, seu pai mantinha a guarda, achava que logo acabaria. Quando ele foi à frente a bala atingiu-o direto no crânio, foi fatal. Nisso, outro soldado rapidamente atira no árabe matando-o. A maldita guerra perdurou por mais um dia, totalmente inútil, pois ainda continua tudo da mesma forma. Seu pai ao falecer foi retirado do campo, mas ninguém sabia ao certo aonde seria levado. Quando cheguei ao hospital no dia seguinte, queria falar com Dora para avisá-la, porém deram-me um sedativo para dormir. Acordei somente dois dias depois e quando recebi alta, fui direto falar com sua mãe, a qual já estava depressiva e não queria mais falar com ninguém. Ela soube a notícia um pouco antes de eu tentar entrar em contato, estava em um estado de choque. Até hoje não consegui me comunicar com ela. Por isso estou aqui hoje, fui obrigado a tomar uma atitude para que soubessem da verdadeira história. Estou próximo de minha morte, o médico disse que meu pulmão não passará de uma semana. Sinto muito que foi desta forma. – Tom estava com os olhos cheios de lágrimas, seu lenço não vencia em secá-las.

Peter esperou uns minutos até que Tom pudesse se acalmar e disse:

– Tom, eu acredito em você, sei que não foi sua culpa meu pai ter sido morto. Se eu estivesse em uma batalha e meu amigo estivesse prestes a morrer, eu também iria querer salva-lo. – Peter ao dizer isso o abraçou. O abraço durou alguns instantes até que foi interrompido pelo Tom dizendo:

– Hey, tenho uma coisa para te dar. – Suas sobrancelhas se levantaram e Peter olhou curioso.

– Esse era o caderno que seu pai estava utilizando como diário, não tenho motivos para guarda-lo. – Estendeu a mão com um caderno de capa dura marrom. – Assim, poderá conhecer um pouco dos pensamentos que seu pai tinha.

Peter pegou o caderno em suas mãos e novamente abraçou Tom fortemente, realmente gostaria de ter sabido de toda história mais cedo. Percebeu que estava diante de um homem que poderia ter sido seu amigo, assim como foi de seu pai. Continuaram a conversar por mais algum tempo e Peter disse ao Tom que iria visitá-lo todos os dias dali em diante.

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