Via Deutsche Welle

Ambos os compositores românticos nasceram em 1810. Duas vidas conturbadas, mortes prematuras, a paixão pelo piano. O alemão admirava o polonês incondicionalmente, sem retribuição. Na música de ambos, ecos da liberdade.

“Tirem o chapéu, senhores: este é um gênio!” Este elogio derramado, publicado em 1831 no jornal musical de Leipzig Allgemeine Musikalische Zeitung, referia-se a um compositor praticamente desconhecido. Ele acabara de apresentar na sala de concertos Gewandhaus seu opus 2, as Variações para piano e orquestra sobre ‘La ci darem la mano’, uma ária do Don Giovanni de Mozart.

O astro da noite, chamado Frédéric Chopin, era filho de uma polonesa com um imigrante francês. Seu local do nascimento foi Zelazowa Wola, próxima de Varsóvia, porém a data é incerta: ou 22 de fevereiro – como se acreditava até há pouco – ou 1º de março de 1810 – mencionada repetidamente por Chopin, nas cartas à mãe. Logo após seu nascimento, a família mudou-se para a capital polonesa, onde o talento musical precoce de Frédéric pôde se desenvolver.

A estreia de Chopin na Alemanha esteve ligada ao primeiro sucesso de um publicista apenas alguns meses mais novo do que ele: Robert Schumann, nascido em 8 de junho de 1810 na cidade de Zwickau, na Saxônia. Ele também aspirava a uma carreira como pianista e compositor e, paralelamente escrevia resenhas musicais.

Crítica musical humanista

Através da mencionada crítica, o colega polonês tornou-se imediatamente conhecido em todo o país. Uma vez que, durante anos, Schumann oscilara entre a literatura e a música, ele dava forma poética a suas resenhas, do mesmo modo que a parte de suas composições.

Uma fonte de inspiração central era o autor Jean Paul. Da mesma forma que este se apresentava através das personagens Walt e Vult, Schumann dividia sua personalidade entre o combativo Florestan e o suave Eusebius.

Em 1834, o músico alemão assumiu a direção redacional da revista Neue Zeitschrift für Musik. Na apreciação sobre os dois concertos para piano e orquestra de Chopin, publicada dois anos mais tarde, Schumann pôs à prova todas as suas qualidades como publicista musical: julgamento musical seguro, linguagem exuberante, engajamento por uma sociedade humanista, aberta, que atravessasse fronteiras.

Ao atribuir ao colega polonês “uma qualidade nacional forte, original”, ele se pronuncia a favor do vizinho povo polonês, dividido entre a Rússia, a Prússia e a Áustria, e duramente massacrado, sobretudo após o fracasso do levante de 1830-31 contra a ocupação czarista. Ao mesmo tempo prestava reverência a Paris, cidade para a qual Chopin emigrara, e à bem-sucedida revolução lá ocorrida em julho de 1830.

Unidos e separados

É patente que Frédéric Chopin não retribuía plenamente o entusiasmo que Schumann lhe dedicava. Ele sorriu dos elogios exacerbados da primeira crítica, e a música do colega não lhe interessava.

No entanto, houve encontros amigáveis. Chopin visitou Leipzig pela primeira vez em 1835, quando apresentou sua Primeira balada, em sol menor a Schumann, e mais tarde a dedicou a ele.

O compositor alemão respondeu com o ciclo pianístico Kreisleriana, que igualmente traz características de balada. Enquanto Chopin se deixara inspirar pelo poeta nacional polonês Adam Mickiewicz, Schumann se apoiou no maestro Kreisler, personagem do romance fantástico Gato Murr, de E.T.A. Hoffmann.

Chopin e Schumann: há tanto para unir quanto para separar esses dois expoentes da música do Romantismo. O primeiro escreveu quase exclusivamente para o piano, o segundo também explorou outros gêneros. Com seus ritmos de dança e seu bel canto pianístico, Chopin alcançou maior popularidade.

Porém o mais cerebral Schumann é responsável por pelo menos dois hits que competem com a famosa marcha fúnebre da Sonata em si menor chopiniana: a peça Träumerei (também conhecida como Rêverie – sonho, divagação) das Cenas infantis, e o primeiro movimento da Terceira sinfonia, ‘Renana’.

Morte e liberdade

Objetos de filmes e livros, ambas as vidas foram obscurecidas pela tragédia. Chopin teve que se separar de sua companheira George Sand, mais velha e dominante, e em 17 de outubro de 1849 – aos apenas 39 anos de idade – faleceu em Paris de tuberculose, que o consumira durante anos.

O depressivo Robert Schumann foi enviado, com 44 anos incompletos, para o asilo para doentes mentais de Endenich, nas cercanias de Bonn, de onde só a morte o libertaria, em 29 de junho de 1856.

Para certos ouvintes mais alertas, a música dos dois clama por liberdade. O filósofo Theodor W. Adorno escreveu assim sobre Chopin: “É preciso ter os ouvidos tapados para não compreender que a Fantasia em fá menor chopiniana é uma espécie de música de triunfo trágico-decorativa, dizendo que a Polônia não estava perdida”.

O mesmo teórico musical afirmaria sobre a obra do contemporâneo alemão: “Nas citações da Marselhesa de Schumann ecoa, enfraquecido, o alvoroço da revolução burguesa, como em sonhos”.

Autor: Augusto Valente
Revisão: Alexandre Schossler



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